"Reciclar a palavra, o telhado e o porão. Reinventar tantas outras notas musicais.

Escrever um pretexto, um prefácio e um refrão, ser essência e muito mais.

A porta aberta, o porto, a casa, o caos, o cais. Se lembrar de celebrar muito mais."

Fernando Anitelli

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Da Natureza da Vida-Morte-Vida


"Não tome comprimido/ Não tome anestesia/ Não há nenhum remédio/ Não vá pra drogaria/ Deixe que ela entre/ Que ela contamine/ Que ela te enlouqueça/ Que ela te ensine/ Não fuja da dor/ Não fuja da dor.
Não tome novalgina/ Não tome analgésico/ Nenhuma medicina/ Não ligue para o médico/ Deixe que ela chegue/ Que ela te determine/ Que ela te consuma/ Que ela te domine/ Não fuja da dor/ Não fuja da dor.
Querer sentir a dor/ Não é uma loucura/ Fugir da dor é fugir da própria cura." (Não Fuja da Dor- Titãs)


Hoje meu filhote completa 10 dias de nascido. Nascimento sem grandes alardes, mas com muitas marcas, de diversos tamanhos.

Escrevi um relato de parto, assim como tantos que eu venho lendo desde o nascimento da minha primeira filha. Ia publicá-lo aqui, mas não vou. Não vou porque é muito íntimo. Não vou porque é dolorido demais reler aquelas palavras todas. Não vou porque, na verdade, pra mim foi uma forma de tirar tudo de dentro e tentar deixar mais leve. Tenho ainda muito o que elaborar e sei que vai levar tempo. Então, um dia, quem sabe, eu publico. Além disso tudo, ele é imenso (5 páginas no word).

Basicamente: sim, ele nasceu no tempo dele. Sim, eu tive o trabalho de parto todinho e posso afirmar que foi a experiência mais poderosa da minha existência. Realmente, passar por isso é transformador, talvez libertador. Ele nasceu naturalmente, via vaginal? Não. E diante disso acho que muita gente já vai entender porque não quero publicar meu relato e porque ainda tenho muita coisa pra digerir.

Nessa digestão, tem coisa fermentando, tem coisa dando frutos, tem coisa apodrecendo, morrendo e renascendo. Tem cheiro de vida nova, mas ainda tem muita mágoa, ressentimento, dor. Tem reavaliação, tem mergulho nas sombras de novo. Engraçado que, no finalzinho da gestação dele, eu já tava angustiada com o pós-parto, porque eu sabia que ia ser punk. Só não sabia que ia ser nessa intensidade...


Não é a maternagem em si. Tô levando as coisas mais levemente. Cuidar dele não tem sido difícil, eu tenho tido mais paciência e disposição, faço as coisas de bom grado, amamentar não tem sido um grande mistério, enfim, cada filho é de um jeito e ele, por enquanto, parece ser uma criança fácil. O que pegou (ou tá pegando, não sei ao certo) é o meu emocional, lidar com a porra da cesárea de novo. Eu venho tentando ignorá-la há dez dias, mas ela não me deixa esquecer dela.

Traumática, estressante e desnecessária são boas definições pra ela. Inconveniente, indesejada e dolorida também. Fiquei muito mal mesmo. Pensei em estresse pós-traumático várias vezes, em depressão também. Nunca vi uma pessoa chorar tanto e de forma involuntária como eu chorei. Chorei, no passado. Tem dois dias que eu não choro por causa disso. Lembro todo dia, afinal, tenho mais uma cicatriz na barriga (literalmente, gente), ainda tem movimentos que são difíceis, tô limitada numa série de coisas. Mas não tô chorando quando acordo pra amamentar à noite, quando tomo banho, quando fico insone, quando fico sozinha... Já tô no lucro.

Acho que parei de chorar primeiro por causa dos remediozinhos milagrosos da minha homeopata (ela me deu uma dose única de um floral, no dia seguinte eu não tava mais chorando), depois porque lembrei de uma frase que ouvi de um conhecido ainda na faculdade: dor é inevitável, sofrimento a gente escolhe. E eu não quero ficar sofrendo, remoendo, ressentindo, revivendo nada daquilo. É uma pena que tudo isso esteja associado ao nascimento do meu filho. Mas, tenho fé em mim mesma. Com o tempo, vou conseguir pelo menos lidar de uma forma mais saudável com isso.

No fim das contas, tenho um bebê que nasceu de 39 semanas e 6 dias (ou 40 semanas e 3 dias, depende do jeito que a gente contar), num trabalho de parto maravilhoso, que começou bem devagarzinho, me fazendo olhar pro meu corpo lindamente redondo de uma forma e com uma intensidade que eu nunca havia olhado antes. Senti tudo o que eu queria, todas as dores. Descobri ter mais nervos, peito e coragem do que eu imaginei que eu tinha. Encarei a sombra de frente e foi lindo! Mesmo não tendo o desfecho que eu imaginei (ele nascendo naturalmente, indo pro meu peito coberto de vérnix e sangue, com o cordão ainda pulsando), não troco minhas contrações, minhas dores, minha alteração de consciência, meu desnudamento e desdobramento por nada neste mundo. Essa experiência foi só minha e do meu filho e ninguém nunca vai tirar isso da gente.


"E nossa história não estará
Pelo avesso, assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas prá contar.
E até lá, vamos viver.
Temos muito ainda por fazer,
Não olhe prá trás.
Apenas começamos.
O mundo começa agora,
Apenas começamos..."
(Metal Contra as Nuvens- Renato Russo)

P.S.: 4,090kg e 52 cm.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

11 de Maio de 2012, 5h55min

Essa é a data e a hora de nascimento do meu filho.

Ele é lindo e perfeito.

E isso é tudo que quero partilhar agora.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Castelos na Areia de Julho

Parei de me informar. Suspendi o pensamento racional. Daqui uns tempos ele volta. Deixa a Cássia e o Fernando falarem que é melhor.

Primeiro de Julho
Cássia Eller

Eu vejo que aprendi
O quanto te ensinei
E é nos teus braços que ele vai saber
Não há por que voltar
Não penso em te seguir
Não quero mais a tua insensatez

O que fazes sem pensar aprendeste do olhar
E das palavras que guardei pra ti
Não penso em me vingar
Não sou assim
A tua insegurança era por mim

Não basta o compromisso
Vale mais o coração
Já que não me entendes, não me julgues
Não me tentes

O que sabes fazer agora
Veio tudo de nossas horas
Eu não minto, eu não sou assim

Ninguém sabia e ninguém viu
Que eu estava a teu lado então

Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha,
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser
Sou Deus, tua deusa,meu amor
Alguma coisa aconteceu
Do ventre nasce um novo coração


Não penso em me vingar
Não sou assim
A tua insegurança era por mim

Não basta o compromisso
Vale mais o coração

Ninguém sabia, ninguém viu
Que eu estava ao teu lado então

Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha,
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser
Sou Deus, tua deusa, meu amor

Baby, baby, baby, baby

O que fazes por sonhar
É o mundo que virá prá ti e prá mim

Vamos descobrir o mundo juntos baby
Quero aprender com o teu pequeno grande coração
Meu amor...

Nosso Pequeno Castelo
O Teatro Mágico

 Já longe de tanta fumaça
Menina que manda seus beijos com graça
Me faça rir, me faça feliz
Sentada na areia, brincando com a sorte não chove não molha
Não olhe agora, estou olhando pra você

Me faça um gesto, me faça perto
Me dê a lua que eu te faço adormecer


Anoitecerá
Na estrada o farol de quem se foi
Já não ilumina quando te beijar
Parece que a vida inteira esperei para te mostrar
Que na rua dia desses me perdi

Esqueci completamente de vencer
Mas o vento lá da areia trouxe infinita paz


Já longe de tanta fumaça
Menina que manda seus beijos com graça
Me faça rir, me faça feliz
Sentada na areia, brincando com a sorte não chove não molha
Não olhe agora, estou olhando pra você

Me faça um gesto, me faça perto
Me dê a lua que eu te faço adormecer


Anoitecerá
Na estrada o farol de quem se foi
Já não ilumina quando te beija
Parece que a vida inteira esperei para te mostrar
Que na rua dia desses me perdi

Esqueci completamente de vencer
Mas o vento lá da areia trouxe infinita paz

No nosso livro a nossa história é faz de conta ou é faz acontecer?
 Acontecerá

(Acontecerá, minha gente, acontecerá... )

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Licença

Estou oficialmente  de licença. Não via a hora chegar, pra ficar à toa. Mas, depois de 4 dias em casa com chuva em tempo integral... Já me arrependi de parar de trabalhar. Meu único pensamento é: o que eu vou fazer até a hora chegar?

Todo mundo me fala pra aproveitar pra descansar, mas é difícil. Eu não tenho posição que seja confortável por muito tempo, internet tem hora que dá no saco. Por mais que eu esteja viciada em informação e esteja lendo muitas coisas que são do meu interesse, uma hora acaba ou cansa mesmo. Tv não tem nada pra se assistir e eu tenho meus programinhas semanais que eu assisto à noite, depois que a Pequena dorme. Então, a pergunta: o que fazer?

Confesso que tô ansiosa com esse vazio. Não sei com o que preencher. Já me falaram pra ajeitar as coisas do bebê, mas pra mim isso não tem tido apelo. Por falta de criatividade, o quarto e a decoração ficaram tão em segundo plano, eu tô achando tão desnecessário. As roupas estão lavadas, passadas, guardadas, tudo em ordem. Malas prontas, só falta separar documentos. Pirulita na escola à tarde. O que me resta? Esperar. Esperar. Esperar.

Preciso achar algo pra preencher o tempo, porque eleinvariavelmente vai passar e a hora vai chegar. E eu vou me arrepender se eu não fizer nada de interessante nesse processo...

"Eu amo maternar, mas sou contraditória porque as vezes a maternidade nos coloca em papéis tiranos que não gostaríamos de enfrentar, ainda mais sozinhas. Não quero quando o futuro chegar olhar para o meu eu hoje e ver somente um mundo doce e alegre, ou só amargo e triste. Porque para mim hoje a maternidade é um dos maiores desafios da minha vida e mistura com precisão derrotas e vitórias. É isso que quero contar para minha filha, sem rodeios ou pudores." Luka Franca

Um pouco dos textos que eu andei lendo:

Um Pouco de Culpa Materna de Uma Mãe Solteira
Amor Biscate- Uma Prosa Poética
Casamento?
Mulheres em Movimento no Mundo

sábado, 28 de abril de 2012

Dos Suplícios da Vida a Dois

PUTA. POSSESSA. TOMADA. IRRITADA. FORA DO CORPO. DESCONEXA. SEM CONDIÇÃO DE ARGUMENTAÇÃO. SEM RACIOCÍNIO LÓGICO.



Não é de hoje que aqueles que me acompanham sabem que eu ODEIO tudo o que diz respeito a serviços domésticos. E todo mundo sabe que esse pavor é assim mesmo, em letras garrafais. E piora a cada dia que passa.

Mas, hoje eu descobri umas coisinhas acerca desse pavor. Coisinhas que surgiram depois de leituras que andei tendo (tô meio viciada em informação, tenho lido muita coisa feminista, com viés sociológico e antropológico, aí imagina a cabeça do ser humano como fica: a milhão, quase dando nó!). Eu não odiava tanto assim serviço de casa. Nunca gostei, é fato, mas nunca me incomodou fazer a ponto de me irritar, me levar às raias da loucura, me fazer chorar de tanta frustração. Sim, eu preferia ir pro colégio em dia que teria aula até às 10h30 só pra não ficar em casa ajudando minha mãe com serviço, mas minha filosofia acerca do assunto era "ninguém nunca morreu por isso". Em dado momento da minha vida, isso mudou da água pro vinho.

E me entristeço muito em assumir que mudou a partir do momento em que fui morar junto com meu marido. Infelizmente, essa é a grande verdade. Porque a criação dele é muito diferente da minha e mesmo eu sendo mandona e briguenta, não mudou muita coisa. Ok, ele melhorou anos-luz ( o Sheldon do The Big Bang Theory diria que anos-luz não mede quantidade...) perto do que ele era quando começamos a namorar, mas está muito longe do que é o ideal e funcional pra mim. E acho que se a coisa me deixa tão raivosa a esse ponto em que me encontrei hoje, não está funcionando pra ninguém aqui dentro de casa. Ninguém mesmo. Porque sobra pra todo mundo, marido, filhos e bichos. E eu fico um caco (emocionalmente falando) no fim do dia.

Antes que venham me julgar (e se me julgarem também, foda-se), vou desenhar o panorama da minha manhã de sábado de feriado: o ser humano está pesando 120kg, final de gestação, dormindo picado há meses, com dores pelo corpo devido às modificações do mesmo e à falta de posição pra dormir, pés mega inchados e, excepcionalmente hoje, com um piriri de fazer gosto. Dispensamos um dia da faxineira há cerca de dois meses para contenção de despesas e eu estou lavando todas as roupas, inclusive as dos cachorros, por causa disso. Minha filha tem quase 3 anos e acorda invariavelmente às 7h da manhã. Ela é bagunceira. Meu marido é bagunceiro. Eu só consigo organizar as minhas bagunças da semana (que vou entocando no meu quarto já que ninguém tem acesso a ele devido aos horários invertidos do casal) no final de semana. E ainda tinha as roupinhas, roupas de banho e cama do bebê pra terminar de lavar.

Levantei indo direto pra cozinha fazer café da manhã pra gente. Ele sempre chega às 7h10. Hoje, por algum motivo, chegou às 7h30. TUDO já estava na mesa, prontinho, quentinho, bonitinho. Até aí, sem problemas. O problema começou assim que resolvemos sair da mesa. Eu adoro tomar café e gosto de tomá-lo demoradamente. Ele toma com um olho na tv e, assim que termina, sai da mesa. E larga a porra da caneca e do prato dele prá trás (mas não esquece do controle remoto). Eu ainda fico bebericando a minha tricentésima caneca de café mais um tempo, olhando o mundo pelo recorte da janela da sala. Antes mesmo de sair da mesa, começo a juntar as coisas para tirar. Hoje, falei em alto e bom som: "vou deixar as coisas aqui porque vou começar a arrumação pelo nosso quarto. Você tira pra mim?". Ele falou sim, mas não levantou a meleca da bunda do sofá. Tá, eu não pedi pra ele fazer naquela hora, mas... Passei na máquina de lavar roupas, coloquei pra encher e coloquei as roupinhas do bebê lá dentro.

Fui pro quarto e a arrumação demorou quase uma hora, pois tinha mala a ser desfeita, roupas a serem separadas, guardadas, cama pra arrumar, tirar lixo do wc, enfim, a bagunça da semana que eu fui entocando. E eu tenho o hábito de ir devolvendo as coisas pros cômodos aos quais pertencem conforme vou organizando um deles. Resultado: começa a empilhar coisas no quarto da minha filha e na sala, pois sempre tem coisas desses cômodos nas minhas coisas. A bagunça, antes escondida, começa a aparecer. E meu maridinho lindo sentado no nosso maravilhoso sofá, com a tv ligada e jogando truco no MEU celular (odeio que peguem meu celular sem pedir pelo simples fato de que ele É MEU!). Lá pelas tantas, eu me enfezei e perguntei: "você não vai me ajudar?". Ele respondeu que sim e emendou: "o que você tá fazendo?". JESUSMARIAEJOSÉ!! Juro que se fosse ninja, voava no pescoço dele! "O que eu tô fazendo?!?!?! Tô fazendo serviço! Arrumando bagunça! Ajeitando as coisas!". Meu dia já tava fodido aqui.

Encurtando a novela: o dia seguiu assim até às 11h. Eu me matando e meu amor enrolando. Aí comecei a mandar: Faz isso agora pra mim, por favor? Pega num sei o que ali? Tira isso? Guarda aquilo? E depois falam que eu sou mandona. Pois é... Se eu não mando, o bonito não faz e eu, já moída a essa horas, começo a ter muitas dores que me fazem chorar mesmo, porque eu não tô em condições nesse momento da minha vida. Só me resta carregar a fama de carrancuda, mal humorada, mandona, briguenta... Mas, é a única linguagem que ele entende. Triste.

 

Importante ressaltar que, às 11h, ele viu uma brecha na rotina e escapuliu. Eu tinha pedido logo cedo pra ele fazer uma canja pro almoço por causa do piriri que eu ainda estou (agora deve ser emocional mesmo, o que era fisiológico já foi água abaixo...). Ele saiu às 11h com a desculpa de ir comprar os ingredientes e voltou exata 1h depois. Lindo, né? E a ridícula aqui continuou fazendo serviço. Sabe que horas a canja saiu? 14h. E a pamonha ainda fazendo serviço, chorando de dor nos pés, na coluna, barriga dura... Assim que a canja ficou pronta, ele foi dormir. Está dormindo (22h49 agora). E vai dormir até amanhã, muito provavelmente acordando depois de mim. Porque, como eu já disse outras vezes, eu acordo com uma respiração diferente que minha filha dê, ele não.

Tudo bem, no fim das contas, é melhor ele dormindo. Porque a minha raiva se acalma, eu e minha filha ficamos menos irritadas, ela respeita o cochilo que eu tiro e depois fazemos muitas coisas juntas. Entre elas, as refeições. Ela me acompanha no quintal enquanto tiro as roupas do varal e aproveita pra brincar com os cachorros. Não rola manha por causa da tv. E quando ela dorme, sobra tempo pra eu fazer as coisas que eu gosto e que eu não preciso dele. Aliás, nem gosto que ele esteja por perto. Uma delas é escrever. O chato dessa história é que eu sei que minha filha fica difícil em dias como esse porque ela me vê puta. Ela reflete o que ela vê em mim. E ela não precisa disso nessa idade.

Depois dessa ladainha, acho que fica fácil entender porque eu passei a ODIAR serviço doméstico. Fica fácil entender porque eu prefiro ir pro consultório atender. Fica fácil entender porque eu prefiro ir fazer feira com meus pais e minha filha no fim de semana do que ficar aqui dentro de casa. E eu não era assim. Eu ficava sozinha em casa numa boa ajeitando as coisas há oito anos atrás. Eu levantava às 5h da madrugada pra limpar minha casa sem passar calor. Eu lavava várias máquinas de roupa sem reclamar enquanto eu lia um bom livro. Hoje não. Sabe porque antes eu fazia? Porque era só eu. Era só as minhas coisas. Era só a minha bagunça. Agora tem a dele e a da minha filha. A única que eu tenho OBRIGAÇÃO de juntar, além da minha, é a da minha filha. E isso só até ela ter tamanho pra começar a juntar ou entocar por conta.

E não me venham com o discurso patético e ridículo de que é obrigação e dever da mulher cuidar da casa, do marido. Balela! Isso é discurso machista! Isso é o que foi ensinado sei lá eu há quantos séculos atrás pros nossos ancestrais e a gente só vem repetindo comportamento. A grande maioria dos homens que eu conheço vem com essa idéia pronta de que eles não tem que fazer nada além de prover, a gente que se lasque. Não é assim, minha gente! Ninguém morre de limpar casa. Morre de fazer tudo sozinho e ver o outro sem fazer bosta nenhuma, sentado no sofá, esperando a vida passar. Morre da raiva que passa de ver a desigualdade na situação.

Quer dizer que só porque eu sou mulher eu tenho que fazer e me calar? Está pressuposto que minha vida tem que ser assim? Que eu tenho que ensinar minha filha a fazer serviço de casa e prover e alimentar e cuidar de MARMANJO porque é isso que a sociedade espera? Que vou ensinar pro meu filho que as mulheres do mundo DEVEM paparicá-lo e entretê-lo e cuidá-lo e lambê-lo, porque afinal de contas ele é HOMEM? Vá à merda antes que eu me esqueça! E que os deuses me dêem discernimento e percepção no dia-a-dia de criar meu menino que ainda nem nasceu com um pensamento e forma de ver o mundo um pouco mais igualitária, compreensiva e cooperativa...

Em tempo: buscando imagens pra esse post, o que mais achei foi fotos insinuantes. Além de tudo, os infelizes têm fetiche em mulher fazendo faxina (como se depois de um dia de faxina desse pra sentir tesão por qualquer coisa...)! Sai que é zica!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Tem que Ter Fé (?)

 Sou politeísta. Tenho uma fé misturada. Queria achar todas as definições muito legais que aprendi pra essa multimídia cultural e espiritual que eu me tornei, definições devidamente bem anotadas como nerd que sou, no meu caderno da pós. Aula com o Zacharias, de Psicologia e Religião. Definições muito práticas e diretas dessa miscelânia que a vida fez de mim. Mas, nem sei onde meu caderno foi parar... Acho que está no consultório. ACHO.

Nesse achômetro, achei um pouco da minha fé de volta, eu acho. É engraçado, eu não rezo todo dia. Eu não tenho constância. Eu não tenho disciplina. Tenho MUITA preguiça. Mas adoro estátuas de santos, deuses e deusas. Adoro velas. Adoro incenso. Adoro tarôs. Adoro cristais. Com frequência falo "Deus abençoe" (o acento sumiu porque eu não sei onde ele vai nessa palavra, nunca!) ou clássicas como "Protegei-me, velai-me, guardai-me" ou ainda "Deus proteja!", Costumo dizer que rezo toda hora porque toda hora uma dessas expressões me escapa da boca, nos momentos mais diversificados possíveis.

Mas, não vou à igreja. Não vou à missa. Não gosto. Já fui algumas vezes em centro espírita tomar passe e gostei muito do ambiente. Não vou mais por preguiça. Fui num centro de Umbanda pra ver como era e fazer um trabalho pro mesmo professor lá de cima, o Zacharias. Achei bem legal. Sou louca pra ir num terreiro de Candomblé pra ver um orixá dançar. Adoro visitar Nova Gokula, a fazenda Hare Krishna que tem aqui perto. Acho o templo maravilhoso, calmo, tranquilo. Adoro o cheiro de vaca misturado com o de incenso, aquela sensação de estar fora da realidade, num universo paralelo. Mas é só isso. Não quero me prender a nada, nem ninguém. Acredito que são variações acerca do mesmo tema e todos eles levam ao mesmo lugar: o encontro com o Sagrado, com o Divino. E isso me basta, não me importo muito com a roupagem, a forma, a cor, o nome.

Muito do que eu acredito vem das minhas leituras, das minhas buscas pessoais e intransferíveis. Aglutinei um pouco de tudo e hoje carrego na bolsa imagens de deuses e deusas de diversas culturas, inclusive santos católicos. É tudo junto e misturado. Criei meu jeito de rezar/meditar, meus rituais e quando dá vontade, eu faço. Confesso que estou (ou estava, sei lá!) bastante afastada disso tudo, algumas vezes passando pelas minhas crenças e opiniões pessoais com descaso e descrença. Depois que minha filha nasceu, então... Tem coisa que eu acho que é balela, invencionisse, besteira. Mas, volta e meia chamo alguém pra perto, alguém que meu coração diga que eu preciso. E vem na forma de tanta entidade diferente...

Posso afirmar que eu desenvolvi um pensamento muito poderoso. E eu esqueço com muito mais frequência do que eu gostaria, do poder que ele tem. Como minhas orações normalmente envolvem desenho ou escrita, eu criei formas de mentalização muito poderosas e esqueço que elas trazem pra perto muita coisa boa. E afastam muita coisa ruim também.

Por exemplo, se fico obsessiva com algo, isso com frequência acontece do jeito que eu sempre pensei. Eu fico tão tomada com a coisa que eu nem percebo ela se aproximando. Quando ela chega, normalmente me atropela, eu fico atordoada, mas depois vem o momento de iluminação, de felicidade: "UAU!!!! Eu consegui!!!". E agradeço quem eu acho que devo agradecer. Inclusive eu mesma.

Nos últimos 2 meses ou 3, comecei a sentir necessidade de me reaproximar do Sagrado. As coisas começaram a se encaixar e o espaço começou a abrir, aí veio a necessidade de preencher com algo. Com minhas crenças. Começou com as cartas de diversos tarôs diferentes carregadas como santinhos dentro da bolsa (essas daqui, ó), aí uma irritação pela quantia de poeira em cima das minhas imagens, depois a necessidade de limpá-las, outro dia vontade de acender vela e incenso, mais um dia vontade de pintar mandalas. Quando dei por mim, estava pensando em comprar uma imagem de Nossa Senhora do Bom Parto e comprar um santinho dela pra carregar na bolsa. Peguei-me conversando com todo meu panteão numa noite de insônia dessas, fazendo visualizações espontaneamente e tal. E teve coisas ruins também, que me fizeram rever isso.

A última coisa foi um livro que minha mãe me deu, falando sobre o poder feminino, o poder da deusa, tecla na qual bato e defendo desde os tempos da faculdade. E a avalanche de coincidências começou. Tudo se encaixou. Tenho o que preciso pra fazer o que eu preciso do jeito que eu quero. Tenho apoio de quem é necessário. Estou amparada. Tudo aquilo que venho falando desde o ano passado começou a acontecer concatenadamente, efeito dominó, sem briga. Parece que quando eu falei "cansei", tudo se encaixou.

Interessante é que o livro que eu ganhei fala daquilo tudo que eu sempre acreditei e que deixei de lado, achando que fosse bobagem. Coisas que resgatei nessa gestação de uma forma um pouco mais prática e menos intelectualizada. É fácil ler sobre empoderamento feminino (seja lá em qual esfera da vida for), mas é dificílimo vivenciá-lo e fazê-lo acontecer na prática. É fácil falar de autonomia e comparar com as deusas da mitologia grega, quase impossível vivenciar no dia-a-dia. Livre-arbítrio, direito de escolha, tutela, delegação de funções, protagonismo feminino... TUDO LINDÍSSIMO NA TEORIA, MAS DIFICÍLIMO NA PRÁTICA. Não só pela questão cultural, patriarcal, mas também pelas questões pessoais e familiares, inconscientes ou não.

No meu caso, tudo isso passa pela esfera espiritual, pois eu relaciono sim com aquilo que eu acredito, com minha força interior, com meus deuses e deusas e suas diferentes funções. Pois eu acredito carregá-los todos comigo, dentro, fora, sobre e através de quem eu sou. Descobri-me mais ativista do que eu imaginei que um dia eu viria a ser e, com isso, descortinei Ártemis, por exemplo, de uma forma que nunca me passou pela cabeça. Consegui sentir na pele onde ela se encontra com Atena. Consegui entender a ferida de Deméter em relação ao direito de nascer. E isso me põe hoje numa posição estranha.

Estranha porque tenho minha fé: em mim mesma, na minha capacidade de pensar, agir e conquistar, na minha ferocidade em lutar e ir atrás daquilo que quero. Estranha porque venho descobrindo facetas antes desconhecidas, sendo duas delas o tamanho da minha determinação e da minha coragem (sempre me achei tão acomodada, devagar...). Estranha porque venho dando minha cara à tapa e me expondo. Estranha porque venho repensando posturas, conceitos e crenças antes tão arraigadas. Estranha porque venho definindo coisas nas quais eu nem estava pensando de verdade, as definições apenas surgiram. Estranha porque, estranhamente, eu estou em paz...

A Paz 
A paz invadiu o meu coração
De repente, me encheu de paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão
Onde eu já não me enterro mais
A paz fez um mar da revolução
Invadir meu destino; A paz
Como aquela grande explosão
Uma bomba sobre o Japão
Fez nascer o Japão da paz
Eu pensei em mim
Eu pensei em ti
Eu chorei por nós
Que contradição
Só a guerra faz
Nosso amor em paz
Eu vim
Vim parar na beira do cais
Onde a estrada chegou ao fim
Onde o fim da tarde é lilás
Onde o mar arrebenta em mim
O lamento de tantos "ais"




segunda-feira, 16 de abril de 2012

Livre-arbítrio, Informação e Compaixão Combinam?


Essa semana que passou, foi aprovada pelo STF a lei que permite a interrupção de gestação de anencéfalos. O assunto rendeu, não só na mídia, mas também nas redes sociais e na blogosfera. Todo mundo tem uma opinião pra dar, uns contra, outros a favor, cada um puxa a sardinha pro seu lado e defende seu ponto de vista. Eu compartilhei, também, alguns textos no FB. Sou a favor da lei, sua aprovação foi sensata. Não vou falar mais do que isso pra não polemizar.

Porém, o assunto me tirou do eixo e eu fiquei muito pensativa, chegando a ser chata com meu marido, pois retomava minha linha de pensamento a cada pequena nota que eu via ou ouvia na tv. Além disso, acontecimentos nada diretamente relacionados a isso e algumas leituras alimentaram muito minhas minhocas mentais. Preciso dividir o que eu pensei.

Recebi a notícia da gestação de uma menina de 18 anos que eu não conheço, mas conheço o pai do bebê. Pensando no pai, que deve ter uns 21 anos, já estava no script que isso aconteceria. Pela personalidade dele, pela forma de pensar e agir, pela criação e educação. Ele só seguiu o roteiro que criaram pra ele sem perceber. E arrisco a dizer que nada vai mudar na vida dele. Peraí, deixa eu explicar: estou falando do quesito responsabilidade, arcar com as próprias escolhas, assumir o que se faz nessa vida.


Ele é filho de uma família mega-protetora, unida, com tradições arraigadas, daquelas que protegem nome, sobrenome e tradição, inclusive encobrindo os "deslizes" de seus filhos e filhas. Bastante tradicional e antiquada. Assumem os erros dos filhos e netos pra não sujar o nome. Em consequência, não há consequências, certo? Ele é um cara legal, mas bastante imaturo, gandaieiro, festeiro, tem lábia, sempre tem uma namoradinha nova, sei que já teve relacionamentos longos e sérios e parece que esse é mais um. E a menina engravidou.

Quando um não quer, dois não fazem, eu sei, mas meu questionamento ficou em cima de como essa menina não usou proteção? Como ela não se cuidou? Por que? E ele? Qual a desculpa? Estamos em 2012, supõe-se que ambos tenham informação, que sejam "safos", cuidadosos. Aí, meu marido vem com a teoria de que provavelmente a menina devia ser virgem, o cara achou que não tinha risco, insistiu e rolou. Primeiro: que pensamento machista! Segundo: que idéia idiota! A partir do momento em que você tem uma vida sexual ativa, existe o risco de gravidez e de DST, logo, você precisa se cuidar, meudeusdocéu! Veio do meu marido também a afirmação de que a grande maioria da população não pensa ou reconhece essa lógica e que minha forma de pensar e ver o mundo e as relações é equivocada. Ou seja, eu é que sou desajustada.

Pensando e repensando tudo isso e lendo esse texto aqui, conclui que não sou desajustada, mas a linha de raciocínio do meu marido é muito coerente. Como já disse anteriormente, fui criada de forma aberta, sempre conversando com pai e mãe, perguntas respondidas de forma clara, informação sempre à mão. Nunca me negaram informação e livre expressão. Nunca me negaram liberdade, mas sempre me cobraram responsabilidade. Com isso, sexo e relacionamentos são encarados como parte natural da vida até hoje. Nunca escondi o fato de tomar anticoncepcional desde que pressenti que minha hora estava chegando, por exemplo. Mas, eu sou exceção. Meu marido mesmo não recebeu orientação sexual, enquanto eu ganhei livros acerca do tema.


Informação é parte essencial dessa existência. Educação para a vida também. Mas a dura realidade é que quase ninguém recebe isso. Tudo vira tabu e proibido, dogma, passa por questões de moral e inclusive religião. Está arraigado na cultura, quiçá na humanidade, porque não é privilégio nosso, país de terceiro mundo, vivenciar tudo isso. E quando se trata da questão da anencefalia, por exemplo, tudo se complica. Porque vai pegar direto na moralidade cristã que temos enquanto país de maioria católica. E parece que o diálogo se fecha.

Pois bem, vamos deixar isso de lado e pensar de um outro local. Fala-se muito de empoderamento feminino, de feminismo, liberação da sexualidade, igualdade de direitos, autonomia e tantas outras questões relativas a nós, mulheres. Não existe hoje um movimento enooooorme em prol do parto normal/natural? Não é essa a bandeira que levantamos (eu inclusa): liberdade de escolha, de decisão, de autonomia sobre o próprio corpo e sobre as próprias escolhas? E o aborto e a interrupção da gestação de anencéfalos não versa sobre a MESMÍSSIMA coisa? Por que precisamos da tutela do Estado ou da Igreja? Não é uma das questões relativas ao trabalho de parto a tutela do médico?

Desculpem-me, mas não me entra na cabeça como podemos defender tanto nossa autonomia e nossos direitos enquanto seres do sexo feminino, gestantes da vida e versar justamente o contrário quando se trata da morte. Vida e morte são dois lados da mesma moeda, são luz e sombra, andam de mãos dadas! Somos autônomas, independentes e guerreiras quando lutamos pra parir, mas nos tornamos egoístas, injustas e cruéis quando lutamos pelo direito de não parir? De novo: não me entra na cabeça!! É uma grande incoerência.


Vou chover no molhado, mas... Quando engravidamos, passamos por enormes mudanças físicas, psicológicas e sociais. Nossa vida vira de cabeça pra baixo. Porém, mesmo nas condições mais adversas, sabemos que estamos gerando vida. Espera-se que, ao fim de 40 semanas (um pouco mais, um pouco menos), tenhamos um lindo bebê nos braços. Lógico, fatalidades acontecem: abortos espontâneos, natimortos, insuficiências respiratórias, complicações pós-parto... Mas, no geral, esperamos sair do local onde parimos com uma vida nos braços, com os braços cheios. Temos 9 meses pra nos preparar pra receber esse bebê. A mãe de um anencéfalo está gerando um bebê infelizmente fadado à morte. Ela vai sair de onde parir de barriga E braços vazios. Ela vai ter que conviver com essa infeliz sentença por 9 meses e depois pelo resto da vida. Isso é, no mínimo, crueldade.

Natimorto ou gestação interrompida vai deixar marcas, vai precisar de acompanhamento, de acolhimento, de tempo, paciência, luto. Não é menos nem mais sofrido uma ou outra condição, ambas causam dor, ambas envolvem perdas, ambas vão destroçar essa mulher e sua família. Porém, fatalidade é diferente de realidade sabida e gestada na dor por não se ter direito sobre o próprio corpo. A meu ver, o grande xis da questão é esse: ter direito sobre si mesma, sobre seu próprio corpo. Continuamos atreladas ao direito patriarcal... Antes era o homem quem decidia o que fazer da mulher, hoje é o Estado.

Infelizmente, eu tenho acesso à informação e livre expressão, a grande maioria da população, não. Tudo isso que pensei e escrevi não tem valor algum prum monte de mulher desse país enorme e sem porteira que é o nosso. Um monte de mulher não pode nem optar por engravidar ou não. Tem mulher que não tem nem o direito de escolher com quem se deita ou casa! Infelizmente, poder de decisão, autonomia, independência são artigos de luxo, são questão social. Só me deixaria um pouquinho mais feliz se aqueles (e  aquelas) que têm acesso a esses bens tão luxuosos, que são a informação e o livre-arbítrio, fizessem melhor uso dele. Compaixão combina bastante com os dois...



 Esses são os outros textos que andei lendo:
Chega de Torturar Mulheres
Anencefalia, Aborto e Vida