"Não tome comprimido/ Não tome anestesia/ Não há nenhum remédio/ Não vá pra drogaria/ Deixe que ela entre/ Que ela contamine/ Que ela te enlouqueça/ Que ela te ensine/ Não fuja da dor/ Não fuja da dor.
Não tome novalgina/ Não tome analgésico/ Nenhuma medicina/ Não ligue para o médico/ Deixe que ela chegue/ Que ela te determine/ Que ela te consuma/ Que ela te domine/ Não fuja da dor/ Não fuja da dor.
Querer sentir a dor/ Não é uma loucura/ Fugir da dor é fugir da própria cura." (Não Fuja da Dor- Titãs)
Hoje meu filhote completa 10 dias de nascido. Nascimento sem grandes alardes, mas com muitas marcas, de diversos tamanhos.
Escrevi um relato de parto, assim como tantos que eu venho lendo desde o nascimento da minha primeira filha. Ia publicá-lo aqui, mas não vou. Não vou porque é muito íntimo. Não vou porque é dolorido demais reler aquelas palavras todas. Não vou porque, na verdade, pra mim foi uma forma de tirar tudo de dentro e tentar deixar mais leve. Tenho ainda muito o que elaborar e sei que vai levar tempo. Então, um dia, quem sabe, eu publico. Além disso tudo, ele é imenso (5 páginas no word).
Basicamente: sim, ele nasceu no tempo dele. Sim, eu tive o trabalho de parto todinho e posso afirmar que foi a experiência mais poderosa da minha existência. Realmente, passar por isso é transformador, talvez libertador. Ele nasceu naturalmente, via vaginal? Não. E diante disso acho que muita gente já vai entender porque não quero publicar meu relato e porque ainda tenho muita coisa pra digerir.
Nessa digestão, tem coisa fermentando, tem coisa dando frutos, tem coisa apodrecendo, morrendo e renascendo. Tem cheiro de vida nova, mas ainda tem muita mágoa, ressentimento, dor. Tem reavaliação, tem mergulho nas sombras de novo. Engraçado que, no finalzinho da gestação dele, eu já tava angustiada com o pós-parto, porque eu sabia que ia ser punk. Só não sabia que ia ser nessa intensidade...
Não é a maternagem em si. Tô levando as coisas mais levemente. Cuidar dele não tem sido difícil, eu tenho tido mais paciência e disposição, faço as coisas de bom grado, amamentar não tem sido um grande mistério, enfim, cada filho é de um jeito e ele, por enquanto, parece ser uma criança fácil. O que pegou (ou tá pegando, não sei ao certo) é o meu emocional, lidar com a porra da cesárea de novo. Eu venho tentando ignorá-la há dez dias, mas ela não me deixa esquecer dela.
Traumática, estressante e desnecessária são boas definições pra ela. Inconveniente, indesejada e dolorida também. Fiquei muito mal mesmo. Pensei em estresse pós-traumático várias vezes, em depressão também. Nunca vi uma pessoa chorar tanto e de forma involuntária como eu chorei. Chorei, no passado. Tem dois dias que eu não choro por causa disso. Lembro todo dia, afinal, tenho mais uma cicatriz na barriga (literalmente, gente), ainda tem movimentos que são difíceis, tô limitada numa série de coisas. Mas não tô chorando quando acordo pra amamentar à noite, quando tomo banho, quando fico insone, quando fico sozinha... Já tô no lucro.
Acho que parei de chorar primeiro por causa dos remediozinhos milagrosos da minha homeopata (ela me deu uma dose única de um floral, no dia seguinte eu não tava mais chorando), depois porque lembrei de uma frase que ouvi de um conhecido ainda na faculdade: dor é inevitável, sofrimento a gente escolhe. E eu não quero ficar sofrendo, remoendo, ressentindo, revivendo nada daquilo. É uma pena que tudo isso esteja associado ao nascimento do meu filho. Mas, tenho fé em mim mesma. Com o tempo, vou conseguir pelo menos lidar de uma forma mais saudável com isso.
No fim das contas, tenho um bebê que nasceu de 39 semanas e 6 dias (ou 40 semanas e 3 dias, depende do jeito que a gente contar), num trabalho de parto maravilhoso, que começou bem devagarzinho, me fazendo olhar pro meu corpo lindamente redondo de uma forma e com uma intensidade que eu nunca havia olhado antes. Senti tudo o que eu queria, todas as dores. Descobri ter mais nervos, peito e coragem do que eu imaginei que eu tinha. Encarei a sombra de frente e foi lindo! Mesmo não tendo o desfecho que eu imaginei (ele nascendo naturalmente, indo pro meu peito coberto de vérnix e sangue, com o cordão ainda pulsando), não troco minhas contrações, minhas dores, minha alteração de consciência, meu desnudamento e desdobramento por nada neste mundo. Essa experiência foi só minha e do meu filho e ninguém nunca vai tirar isso da gente.
Nessa digestão, tem coisa fermentando, tem coisa dando frutos, tem coisa apodrecendo, morrendo e renascendo. Tem cheiro de vida nova, mas ainda tem muita mágoa, ressentimento, dor. Tem reavaliação, tem mergulho nas sombras de novo. Engraçado que, no finalzinho da gestação dele, eu já tava angustiada com o pós-parto, porque eu sabia que ia ser punk. Só não sabia que ia ser nessa intensidade...
Não é a maternagem em si. Tô levando as coisas mais levemente. Cuidar dele não tem sido difícil, eu tenho tido mais paciência e disposição, faço as coisas de bom grado, amamentar não tem sido um grande mistério, enfim, cada filho é de um jeito e ele, por enquanto, parece ser uma criança fácil. O que pegou (ou tá pegando, não sei ao certo) é o meu emocional, lidar com a porra da cesárea de novo. Eu venho tentando ignorá-la há dez dias, mas ela não me deixa esquecer dela.
Traumática, estressante e desnecessária são boas definições pra ela. Inconveniente, indesejada e dolorida também. Fiquei muito mal mesmo. Pensei em estresse pós-traumático várias vezes, em depressão também. Nunca vi uma pessoa chorar tanto e de forma involuntária como eu chorei. Chorei, no passado. Tem dois dias que eu não choro por causa disso. Lembro todo dia, afinal, tenho mais uma cicatriz na barriga (literalmente, gente), ainda tem movimentos que são difíceis, tô limitada numa série de coisas. Mas não tô chorando quando acordo pra amamentar à noite, quando tomo banho, quando fico insone, quando fico sozinha... Já tô no lucro.
Acho que parei de chorar primeiro por causa dos remediozinhos milagrosos da minha homeopata (ela me deu uma dose única de um floral, no dia seguinte eu não tava mais chorando), depois porque lembrei de uma frase que ouvi de um conhecido ainda na faculdade: dor é inevitável, sofrimento a gente escolhe. E eu não quero ficar sofrendo, remoendo, ressentindo, revivendo nada daquilo. É uma pena que tudo isso esteja associado ao nascimento do meu filho. Mas, tenho fé em mim mesma. Com o tempo, vou conseguir pelo menos lidar de uma forma mais saudável com isso.
No fim das contas, tenho um bebê que nasceu de 39 semanas e 6 dias (ou 40 semanas e 3 dias, depende do jeito que a gente contar), num trabalho de parto maravilhoso, que começou bem devagarzinho, me fazendo olhar pro meu corpo lindamente redondo de uma forma e com uma intensidade que eu nunca havia olhado antes. Senti tudo o que eu queria, todas as dores. Descobri ter mais nervos, peito e coragem do que eu imaginei que eu tinha. Encarei a sombra de frente e foi lindo! Mesmo não tendo o desfecho que eu imaginei (ele nascendo naturalmente, indo pro meu peito coberto de vérnix e sangue, com o cordão ainda pulsando), não troco minhas contrações, minhas dores, minha alteração de consciência, meu desnudamento e desdobramento por nada neste mundo. Essa experiência foi só minha e do meu filho e ninguém nunca vai tirar isso da gente.
"E nossa história não estará
Pelo avesso, assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas prá contar.
E até lá, vamos viver.
Temos muito ainda por fazer,
Não olhe prá trás.
Apenas começamos.
O mundo começa agora,
Apenas começamos..."
(Metal Contra as Nuvens- Renato Russo)
P.S.: 4,090kg e 52 cm.












